Pacientes não acamados que se sentam em cadeiras devidamente equipadas com artefatos como bóias de ar, que são mobilizados freqüentemente com mudanças de posição para outros pontos de apoio, em bom estado nutricional, bem hidratados, estimulados a dar mesmo que sejam pequenos passos de tempos em tempos, dificilmente desenvolverão escaras.
Os curativos de escaras são objeto de grande especulação: usar açúcar, papaína, confrey, e outras formas alternativas são no mínimo discutíveis e não substituem as medidas clássicas de suporte geral aqui citadas.
Os curativos devem obedecer às regras simples, porém rigorosas, de higiene e assepsia. O tipo de curativo a ser usado deve ser prescrito pelo médico.
Pacientes acamados merecem cuidados especiais. Leia mais visitando a seção do Alzheimermed, “Tópicos Relacionados'
INCONTINÊNCIAS
Incontinência é a impossibilidade neuromuscular de controlar a micção (incontinência urinária), a evacuação (incontinência fecal) ou ambos (conjunta, mista ou associada), fazendo com que o paciente perca urina e/ou fezes involuntariamente, causando constrangimento aos pacientes que ainda conservam algum discernimento.
Ao lado das úlceras por pressão, a incontinência também é uma temível complicação que afeta tragicamente a qualidade de vida do paciente resultando em enorme sobrecarga física e emocional ao cuidador.
Ao abordarmos o tema incontinência algumas advertências preliminares devem ser feitas.
A primeira diz respeito ao alto índice de sucesso que pode ser conseguido quando adotamos uma posição não conformista. Toda incontinência deve merecer adequada investigação diagnóstica que determinará as condutas médicas específicas a serem adotadas.
Outra advertência diz respeito à limitação social e ao confinamento que podem ser impostos ao paciente se o gerenciamento desta questão crítica não for cuidadosamente equacionada.
Partos traumáticos e trabalhosos, realizados em casa sem recursos técnicos adequados, freqüentemente acabam por produzir lesões na região perineal. Essas lesões são responsáveis por alterações no controle esfincteriano e em conseqüência, muitas mulheres passam a conviver com perdas mínimas de urina durante muito tempo.
A intensidade varia. Desde pequenas perdas, durante esforços súbitos que aumentem a pressão intra-abdominal como tossir até a incontinência completa com esvaziamento total do conteúdo vesical e/ou fecal.
É óbvio que esses pacientes, quando acometidos pela doença de Alzheimer, mesmo na fase inicial, apresentarão um agravamento importante da incontinência urinária.
É necessário também que se faça distinção entre a verdadeira incontinência ou se o paciente está urinando ou evacuando em locais inapropriados por confusão mental e desorientação ou por outras condições diferentes da incontinência clínica , conhecida como incontinência mecânica.
INCONTINÊNCIA MECÂNICA
A incontinência mecânica relaciona-se com os aspectos físicos e ambientais.
O paciente sente necessidade de ir ao banheiro para urinar ou evacuar, porém obstáculos físicos e ambientais, como estar longe do banheiro, não identificar onde está o banheiro por iluminação precária ou por desorientação têmporo-espacial, impedem que alcancem o vaso sanitário a tempo e o acidente ocorre.
O paciente pode estar enfrentando dificuldades em comunicar que quer ir ao banheiro. Tenta avisar de variadas formas, agitando-se, levantando e sentando várias vezes, esfregando as pernas, andando rapidamente, batendo com as mãos nas coxas ou nos braços da poltrona, coçando-se na região genital ou mesmo abaixando as calças ou levantando o vestido. É necessário que fiquemos alerta acerca destas possibilidades.
Outro fato que ilustra uma incontinência mecânica é quando, por exemplo, o indivíduo sente vontade de urinar ou evacuar, porém em virtude de dificuldade em locomover-se, por dor em um joelho ou outras condições limitantes, acaba por adiar a ida ao banheiro e o acidente acaba ocorrendo.
Esses exemplos demonstram a importância de se fazer um retrospecto a respeito desta questão, para que essas possibilidades sejam excluídas e, se confirmadas, sejam imediatamente solucionadas.
A incontinência pode não estar necessariamente ligada ao processo demencial e dessa forma não deve ser aceita como complicação normal da doença de Alzheimer até que outras possibilidades sejam excluídas.
As roupas complicadas para serem abertas pelo próprio paciente podem retardar o ato da micção ou evacuação. É importante que a roupas sejam de fácil manuseio, de preferência sem botões, com velcro ou elásticos.
Cadeiras muito baixas que dificultam que o paciente se ponha em pé rapidamente, também pode estar dificultando o acesso ao banheiro.
Quando o paciente tem dificuldade em encontrar o banheiro, o uso de cores berrantes e contrastantes nas portas e o uso de placas de identificação, além da manutenção do ambiente convenientemente iluminado, podem colaborar e até mesmo evitar a ocorrência da incontinência mecânica.
INCONTINÊNCIA URINÁRIA
O problema da incontinência urinária é relevante e deve ser analisado sob o ponto de vista não apenas médico, mas também social, econômico e psicológico.
A incontinência urinária é freqüente, de alto custo, muitas vezes negligenciada e geralmente antecede a incontinência fecal.
Calcula-se que pelo menos 1/3 da população idosa americana tenha algum grau de dificuldade em controlar a urina. Cerca de 10% semanalmente perde urina involuntariamente, molhando as roupas. Praticamente a metade dos idosos institucionalizados é incontinente.
Do ponto de vista psico-social a incontinência leva o indivíduo ao isolamento social, depressão e regressão, sendo essa uma das principais causas que determina a institucionalização permanente.
A incontinência urinária favorece várias complicações como assaduras, úlceras por pressão, infecção do trato urinário etc.
Existe também a possibilidade de ocorrência de celulite nas pernas e pés em função de os pacientes constantemente estarem com essas regiões umedecidas pela urina. Pacientes portadores de distúrbios cognitivos e os portadores de diminuição de sensibilidade periférica estão mais sujeitos a essa complicação.
Estudos demonstram que, apesar da importância desta entidade, nos EUA, apenas um entre três médicos inicia um planejamento terapêutico para os incontinentes.
Sabe-se que pelo menos 2/3 das incontinências são virtualmente curáveis; inexplicavelmente, porém, continuam sendo negligenciadas.
As incontinências podem ser divididas da seguinte forma:
INCONTINÊNCIA TRANSITÓRIA
Especialmente importante na doença de Alzheimer é o tipo de incontinência que afeta 1/3 dos idosos que vivem na comunidade e metade dos indivíduos institucionalizados.
É causada por algum agente externo e normalmente passível de tratamento e cura.
A cura reside no afastamento do fator causal que pode ser:
1. Delirium
2. Infecção urinária
3. Medicamentos
4. Depressão
5. Hiperglicemia e Hipercalcemia
6. Imobilidade
7. Fecaloma
8-Deficiência Estrogênica
A incontinência pode também estar relacionada com fatores de irritação vesical, como no caso de cistites, tumor vesical, ou cálculos intravesicais.
É imperioso que ,antes de se estabelecer que a incontinência apresentada é permanente, que os possíveis fatores desencadeantes sejam clinicamente afastados.
INCONTINÊNCIA PERMANENTE
Esse tipo de incontinência normalmente está relacionado com o comprometimento neurológico.
Nas fases mais adiantadas da doença de Alzheimer, por comprometimento do sistema nervoso central, a bexiga contrai-se subitamente, sem aviso, esvaziando-se completamente. Esse fato é conhecido como hiperatividade detrussora ou supercontração da musculatura vesical.
O exame físico detalhado inclui o toque retal, para possível detecção de impactação fecal, avaliação da próstata no homem e exame ginecológico completo nas mulheres.
De posse destes dados, os exames complementares necessários para descartar a incontinência transitória serão solicitados.
A avaliação urodinâmica compreende a cistometria, eletromiograma,avaliação de fluxo urinário e avaliação radiológica.
As avaliações sofisticadas devem ser reservadas aos casos em que, após os procedimentos citados, a causa de incontinência continua desconhecida e as terapias propostas falharam.
Na fase inicial da doença de Alzheimer se houver incontinência, o simples fato de conduzir ou estimular o paciente a urinar com maior freqüência, apresenta bons resultados.
Uma avaliação rigorosa deve incluir um registro detalhado do histórico da incontinência, horários, freqüência, severidade, duração, medicamentos em uso, diabetes, dor / ardor ao urinar, coloração e cheiro da urina, histórico de cálculo renal etc.
Os registros das ocorrências bem feitos, quando analisados, podem demonstrar onde está a chave da questão, minimizando os episódios a partir de medidas simples, como a restrição monitorizada de líquidos a partir de um determinado horário ,em casos de incontinência noturna.
O registro feito pelo cuidador deve conter informações do comportamento da incontinência e do hábito urinário a cada 2 horas por um período de 48 horas.
A tabela abaixo ilustra um registro simples, prático e com informações fundamentais.
|
HORA |
SECO MOLHADO |
QUANTIDADE POUCO REGULAR MUITO |
MEDICAÇÕES |
LÍQUIDOS ALIMENTOS |
OBSERVAÇÕES |
|
8 |
M |
M |
DIURÉTICO |
- |
Avisou q estava urinando. |
|
10 |
S |
X |
- |
- |
Foi conduzido urinou |
|
12 |
S |
X |
- |
ALMOÇO + SUCOS |
- |
|
14 |
M |
P |
- |
LANCHE + LEITE |
Não Avisou |
|
16 |
S |
X |
- |
- |
Pediu e foi conduzido Urinou |
|
18 |
M |
R |
- |
JANTAR + SUCOS |
Dormindo |
Esses registros auxiliam decisivamente na avaliação da incontinência e devem ser preenchidos com rigor.
Algumas medicações podem ajudar no controle da incontinência urinária e devem ser prescritos pelo médico.
As drogas anticolinérgicas devem ser evitadas no paciente com doença de Alzheimer, pois podem desencadear e/ou agravar os quadros de incontinência.
Além destas providências, quando a incontinência se torna irreversível, esgotadas as outras possibilidades de êxito, utilizam-se outros recursos que devem ser adaptados individualmente às necessidades.
Um paciente incontinente vítima de um AVC (derrame) pode se beneficiar mais do uso de fraldas e calças plásticas, pois poderá, com a mão que conservou o movimento, auxiliar e colaborar para urinar em horários predeterminados. Já para pacientes restritos ao leito e demenciados, o uso de lençóis com impermeáveis de borracha ou com gel absorvente são mais apropriados.
Para pacientes demenciados que andam, o uso de fraldas com gel absorvente é indicado mas, se houver incontinência fecal associada, outro recurso deve ser utilizado. As calças plásticas devem ser usadas com muita cautela, por serem freqüentemente responsáveis por processos infecciosos.
O uso de condom (camisinha de vênus) com cateter, conhecido como uripen é útil para pacientes do sexo masculino. Apresentam complicações, especialmente as lesões de pele por alergia etc. Para as mulheres não há, infelizmente até o momento, um coletor externo realmente eficiente.
Soluções inusitadas têm sido propostas no manejo da incontinência urinária, como os grampos de pênis, confeccionados de material de consistência semelhante à espuma de borracha, comprimindo a uretra e evitando a incontinência. Previsivelmente, por serem incômodos e antinaturais não obtiveram sucesso em sua utilização.
Todos esses artefatos, especialmente quando o paciente continua em atividade, devem estar disfarçados, dissimulados, escondidos dentro das roupas na preservação da dignidade.
O uso de “comadres” para mulheres e “papagaios” para os homens, pode ser útil especialmente à noite e para os pacientes restritos ao leito. Os vasos sanitários portáteis podem ser utilizados em viagens, quando não se sabe se se encontrará um banheiro nos horários predeterminados.
Alguns cuidadores usam a técnica da recompensa, oferecendo doces e guloseimas, quando o paciente consegue se manter seco por determinados períodos de tempo. Essa é mais uma estratégia questionável, porém certos cuidadores afirmam obter resultados positivos.
INCONTINÊNCIA FECAL
A incontinência fecal é mais grave que a urinária e, quando se instala, dificilmente é reversível.
É necessário que ao primeiro sinal de incontinência fecal alguns pontos sejam checados: a presença de doença anoretal, o uso abusivo de laxativo, presença de impactação fecal e fecalomas.
Um exame proctológico completo se impõe.
O uso de uma dieta direcionada para regularizar o funcionamento intestinal, lentificando-o dentro de rígidos critérios, dietas obstipantes, indução de constipação controlada por medicamentos e predeterminação dos horários para a evacuação são os recursos disponíveis que, convenientemente utilizados, reduzem o grau e a severidade desta trágica complicação.
A antecipação do acidente é um dos melhores instrumentos no gerenciamento da incontinência fecal. Conduzir o paciente em horários predeterminados, apresenta bons resultados. Esse procedimento pode demorar até que vire rotina, porém os resultados compensam o esforço.