Alois Alzheimer

A Mais Completa Biografia Ilustrada de Alois Alzheimer

O Portal de Conteúdo Sobre Alzheimer na Web Mundial

Aspectos nutricionais

Alimentação

A alimentação é essencial à nossa sobrevivência e normalmente responsável por ocasionar grandes transtornos no cotidiano do paciente demenciado. Por tratar-se de uma atividade com horários preestabelecidos, deve ser planejada adequadamente, na tentativa de que seja agradável e tranquila. À medida que a deterioração cognitiva avança, a alimentação torna-se cada vez mais difícil e problemática.
Alimentar-se de forma saudável e equilibrada na composição, quantidade e qualidade de nutrientes essenciais, é indispensável na prevenção de complicações, das quais as infecções, as escaras e o emagrecimento progressivo são as mais importantes.
A alimentação também é de fundamental importância para o cuidador, que deve observar os mesmos princípios ditados para o paciente.
São vários os problemas ligados à alimentação: condições de mastigação, problemas de deglutição, o paciente esquece-se de que acabou de comer e diz que ainda não comeu, ele espalha comida pela mesa, suja roupas e cabelos, vomita, cospe, pega a comida com as mãos, não fica sentado, engasga, deixa pratos, talheres e copos caírem, transfere sua comida para o prato do seu companheiro de mesa etc.
Além da orientação cardeal de garantir uma alimentação adequada, dependendo do grau de deterioração mental e das alterações comportamentais, uma estratégia deve ser definida caso a caso. Independentemente do grau de dependência, a rotina é fundamental e deve ser obstinadamente observada. Assim como se prepara o banho, a rotina para a alimentação também deve merecer algumas providências prévias.
O horário das refeições deve ser rigorosamente observado. O organismo tende a se habituar com horários rotineiros e o estímulo da fome é essencial para uma boa aceitação alimentar. O local onde a refeição é servida deve ser calmo e de fácil limpeza, sem carpetes e em mesas de tampo de pedra ou fórmica. A toalha deve ser individual e lavável; existem os chamados jogos americanos que são práticos e decorativos, confeccionados em plástico resistente, de várias cores e que devem ser contrastantes com a mesa. O prato deve ser de material inquebrável, e, de acordo com o grau de deterioração mental, podem-se utilizar pratos que aderem diretamente à mesa por intermédio de ventosas, evitando que deslizem facilmente.
Os talheres que estão à disposição do paciente devem ser reduzidos ao mínimo necessário: uma colher para a sopa, um garfo para a carne, uma colher de sobremesa para o pudim, e assim sucessivamente. É importante observar se o paciente tem dificuldade com o formato do talher, pois alguns desenhos e formatos são incômodos e complicam o manuseio.
Existem pratos de borda elevada ou com grades que evitam ou reduzem a quantidade de comida que cai fora do prato. O uso de avental de plástico ou um guardanapo grande atado ao pescoço e de artefatos assemelhados minoram a possibilidade de o paciente se sujar com a comida.
Os pratos devem ser oferecidos um a um e nunca todos juntos.
O tamanho dos pedaços de carne ou dos outros alimentos deve ser apropriado, assim como a sua consistência, a fim de se facilitar a mastigação completa e a deglutição, sem riscos de engasgamento.
Certos pacientes são incapazes de cortar os alimentos e podem sentir-se infantilizados caso o cuidador os cortar na sua frente. Dessa forma, é de bom senso que, se for necessário cortar os alimentos para o paciente, isso seja feito fora de sua vista, entregando-lhe o prato já com o alimento pronto para ser levado à boca. Determinados pacientes perdem a habilidade de manusear talheres e esse fato por si só não os impede de se alimentar sem ajuda.
Pode-se usar a criatividade, oferecendo alimentos que podem ser comidos com as mãos, como sanduíches, coxas de galinha, pedaços de vegetais, pizzas, peixe frito em pedaços, batata frita, milho cozido, bolos, pão com manteiga, cachorro-quente e uma gama infindável de outras possibilidades. Esses recursos são extremamente importantes e devem ser estimulados, pois mantêm a alimentação como uma atividade diária passível de ser realizada com independência, liberando o cuidador de uma tarefa adicional.
Outro recurso que funciona, e se torna até uma atividade adicional, é trocar as três refeições tradicionais por pequenas refeições oferecidas em intervalos regulares, a cada 3 ou 4 horas ao longo do dia. Esse recurso é particularmente útil para aqueles pacientes que se esquecem de que acabaram de comer e pedem que lhes seja servida comida a todo instante. Se o paciente costuma brincar com a comida, levando-a à boca com as mãos, o uso de pratos fundos do tipo vaso (que possuem meia tampa) e colocar o alimento aos poucos, em pequenas porções, pode ajudar.
O uso de molhos e alimentos úmidos favorece os transtornos colabora para que o ambiente fique sujo com facilidade.
Pacientes que comem compulsivamente também são comuns. Tirar todo alimento extra de sua vista, oferecendo-lhes apenas a sua porção e manter o registro do que efetivamente já ingeriram habilita o cuidador, com segurança, a interromper a alimentação compulsiva, uma vez constatada que a dieta previamente quantificada já tenha sido ingerida.Por outro lado, o uso de pequenos pedaços de verduras ou biscoitos ,colocados em um pratinho de tempos em tempos ,costuma satisfazer os pacientes compulsivos.
Não se deve tentar evitar esse fato, tentando grandes mudanças no cardápio. Se tiverem preferências específicas com falta de certos nutrientes essenciais, estas podem ser respeitadas desde que suplementações  dietéticas necessárias sejam indicadas sob orientação profissional.

Existem xícaras com tampas providas de dispositivos que permitem sugar os líquidos, evitando que derrubem o conteúdo.
A elaboração do cardápio diário deve ser adaptada aos costumes da família. Não se deve mudar tudo em função do paciente, e a palavra-chave nesse contexto é adaptar.
De acordo com características de cada caso, a orientação profissional de um nutricionista associada ao bom senso e um pouco de criatividade resultará em uma boa adaptação nutricional, de elaboração simples e prática.
Certos doentes requerem dietas especiais, como pacientes com diabetes, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, gota e outras doenças; estes necessitam de orientação especializada e acompanhamento rotineiro.
Utilizar, preferencialmente, alimentos frescos. Os produtos industrializados devem ser utilizados apenas em situações particulares, sendo um recurso alternativo e secundário.
Alguns alimentos tem sido objeto de discussão no tocante a colaborarem para a melhoria do estado cognitivo do paciente, porem não há qualquer evidência científica que apoie esta teoria.

 Há situações delicadas: familiares que nunca cozinharam, especialmente os maridos, quando transformados em cuidadores e passam a ter esse encargo, por vezes acabam por restringir a alimentação do casal ao tradicional pão com manteiga e café com leite, alimentos insuficientes e inadequados do ponto de vista qualitativo.
A entrega de pelo menos uma refeição nutritiva por dia pelos órgãos oficiais seria uma ajuda inestimável, evitando que o familiar já sobrecarregado física e emocionalmente viesse a depender da ajuda de terceiros. Políticos que entendem ser esse serviço uma utopia olham para o problema com uma visão estreita uma vez que, esse procedimento simples e direto, resultaria em grande economia ao governo e á sociedade, evitando internações hospitalares e institucionalizações desnecessárias.
Alguns problemas físicos podem ser minimizados pela alimentação. Pacientes com pouca atividade física e idosos costumam ser constipados, e uma dieta rica em fibras promove um melhor funcionamento intestinal. A quantidade de calorias necessárias também deve ser observada com muito critério, pois, para pacientes restritos ao leito, com pouca movimentação e pouca atividade física, o número de calorias necessárias é evidentemente menor do que para os agitados ou vagantes, que andam durante todo o dia.
Alguns pacientes esquecem-se de mastigar e, por isso, têm que ser lembrados para que mastiguem o alimento antes de tentar degluti-los. Existem pacientes que, após introduzir o alimento na boca, ficam parados e esquecem o que estão fazendo e devem ser avisados. Nesses casos, o uso de dietas pastosas ou alimentos cortados em pequenos pedaços favorece a alimentação e previne episódios de broncoaspiração.
O sabor deve ser levado em conta, e não se deve confundir dieta pastosa com algo disforme e de origem absolutamente desconhecida, em virtude de simples liquidificação da refeição. Determinados alimentos como purês, sopas cremosas, gelatinas, pudins e outras modalidades de alimentos nessa consistência devem ser priorizados e inseridos no cardápio cotidiano.
Boa parte dos pacientes costuma imitar gestos e atitudes. Esse fato pode ser bastante produtivo à mesa, onde o cuidador deliberadamente faz alguns gestos para se alimentar para que seja imitado pelo paciente. Essa é uma, entre tantas, das surpreendentes constatações que podem ajudar muito. Deve-se tentar ajustar o horário das refeições do paciente junto ao dos familiares.
Estudos demonstram que pacientes que se alimentam solitariamente são menos nutridos e apresentam maiores distúrbios comportamentais quando, discriminatoriamente, alimentam-se antes ou depois dos familiares. Aqueles que necessitam de suplementação vitamínica ou de algum reforço dietético devem receber orientação especializada.
Os doces em geral são muito apreciados pelos pacientes, incluindo os sorvetes que podem ser enriquecidos com pedaços de frutas e outros, como castanhas e amendoim ralados.
Uma outra providência é certificar-se de que o alimento é oferecido em temperatura adequada. Sopas quentes, em especial, podem causar acidentes.
Nas fases mais avançadas, é possível que o paciente tenha que ser alimentado, e algumas precauções, além das já descritas, devem ser adotadas.
Nunca se deve alimentar o paciente deitado, pois isso propicia uma aspiração com a entrada de alimentos nos pulmões, provocando sérias complicações.
Deve-se alimentar o paciente o mais sentado possível de preferência com alimentos mais pastosos ao invés de dietas muito liquidas.
A posição semi-sentada deve ser confortável, com o paciente bem posicionado com o auxílio de travesseiros.

Na total impossibilidade, pelo menos a cabeça deve ser elevada por um dos braços do cuidador, enquanto a outra mão o alimenta, aguardando que a porção seja deglutida.
Ao alimentar o paciente no leito é bom que a roupa de cama na parte superior (relativa à cabeceira e os travesseiros) esteja protegida com plástico, para não sujá-la.
Os alimentos não devem estar muito quentes nem frios e testar antes de administrá-los é obrigatório.
Como já apontado anterioremente, dietas pastosas que necessitam de alguns movimentos mastigatórios, como os purês, são aceitas mais facilmente e devem ser utilizadas. A colher deve ser preenchida com dois terços de sua capacidade e pressionada gentilmente contra os lábios do paciente, avisando-o que será alimentado.
O uso de canudos para líquidos costuma ser um bom recurso, mais fácil que o copo convencional.
O processo de alimentar pacientes altamente dependentes é trabalhoso e pode levar muito tempo. Uma atitude tranquila, em que se respeitem as limitações do paciente debilitado, sem pressa e com palavras encorajadoras contribui efetivamente para o sucesso da operação.
É difícil aquilatar se estamos nutrindo adequadamente pacientes totalmente dependentes a não ser que haja um registro diário. Uma simples folha de papel com as informações a respeito de horários, qualidade, quantidade e peso fornece um histórico importante.
Alguns cuidadores usam a mamadeira para alimentar pacientes em fase terminal, com bastante sucesso.

Essa conduta tem muitos críticos que alegam que esse procedimento infantiliza o paciente com suas negativas conotações.

A nosso ver, apesar da polêmica, todos os recursos disponíveis, esgotadas as outras tentativas de alimentação natural, são válidos. Alimentar com mamadeira é melhor que o uso de sondas, muito mais antinaturais, pois retira do paciente a possibilidade de sentirem o sabor dos alimentos, são de difícil preparo, requerem supervisão na administração além de necessitar de infraestrutura mais sofisticada.
Pacientes com incontinência fecal podem ser ajudados com uma dieta criteriosamente elaborada com o propósito de reduzir os acidentes de incontinência. Essa orientação é feita pelo médico em conjunto com o nutricionista e assessorada pelo cuidador, que fornece os alimentos preferidos para que a composição final do cardápio seja nutritiva, segura e agradável. Não se deve esquecer de que, apesar do comprometimento intelectual do paciente, devemos respeitá-lo, oferecendo-lhe sua dieta com cuidado, em termos de boa apresentação e sabor.

Líquidos

A ingestão adequada de líquidos é fundamental e deve ser mensurada. Se não houver registro, corre-se o risco de se perder a noção do quanto foi ingerido. De modo geral, exceto em condições especiais, se aceita que o paciente deva ingerir em torno de 2 litros de líquidos, nas 24 horas do dia. Se subtrairmos desse total a quantidade de líquidos contidos nos alimentos, poderemos preparar garrafas ou vasilhames graduados com sucos ou outras bebidas, para que tenhamos a noção exata do que está sendo consumido ao longo do dia.
A quantidade deve ser determinada de acordo com as condições de cada paciente, com um enfoque totalmente personalizado, o que deve ser feito pelo médico.
Pacientes portadores de doenças como insuficiência cardíaca e outras condições devem ser analisados individualmente.
O manejo da incontinência urinária pode passar por uma criteriosa restrição de líquidos a partir de um certo horário, na tentativa de minorar os acidentes de incontinência urinária, especialmente à noite.
Enfatizamos a imperiosa necessidade de que o médico estabeleça a quantidade de líquidos necessária a cada paciente, assim como o uso do sal, gorduras e outros alimentos relacionados a determinadas doenças.

Referências Bibliográficas
  1. Blumberg JB. Nutrient requirements for the healthy elderly. Contemp Nutr 1986;11(6):1-2.
  2. Buckler DA, Kelber ST, Goodwin JS. The use of dietary restrictions in malnourished nursing home patients. J Am Geriatr Soc 1994;42:1100-1102.
  3. Campbell-Taylor I, Fisher RH. The clinical case against tube feeding in palliative care of the elderly. J Am Geriatrics Soc 1987;35:1100-1104.
  4. Chandra RK. Effect of vitamin and trace-element supplementation on immune responses and infection in elderly subjects. Lancet 1992;340:1124-27.
  5. Corti M, Guralnik JM, Salive ME, Sorkin JD. Serum albumin level and physical disability as predictors of mortality in older persons. JAMA 1994;272:1036-1042.
  6. Drinka PJ, Goodwin JS. Prevalence and consequences of vitamin deficiency in the nursing home: a critical review. J Am Geriatr Soc. 1991;39:1008-1017.
  7. Finucane TE, Christmas C, Travis K. Tube feeding in patients with advanced dementia: a review of the evidence. JAMA 1999;282:1365-1370.
  8. Folsom AR, Kalye SA, Sellers TA, et al. Body fat distribution and 5-year risk of death in older women. JAMA 1993;269:483-487.
  9. Gillick M. Rethinking the role of tube feeding in patients with advanced dementia. NEJM 2000;342:206-210.
  10. Johnson K, Kligman EW. Preventive nutrition: an optimal diet for older adults. Geriatrics 1992;47(10):56-60.
  11. Kamel HK, Thomas DR, Morley JE. Nutritional deficiencies in long-term care, Part II: management of protein energy malnutrition and dehydration. Annals of Long-Term Care 1998;6(8):250-258.
  12. Lipshitz DA, ed. Nutrition, aging, and age-dependent diseaes. Clin Ger Med 1995 Nov;11(4):553-765.
  13. Losonczy KG, Harris TB, Havlik RJ. Vitamin E and vitamin C supplement use and risk of all-cause and coronary heart disease mortality in older persons: the Established Populations for Epidemiologic Studies of the Elderly. Am J Clin Nutr 1996;64:190-196.
  14. Marcus DL, Freedman ML. Folic acid deficiency in the elderly J Am Geriatrics Soc 1985;33:552-558.
  15. Meydani SN, Meydani M, Blumberg JB, et al. Vitamin E supplementation and in vivo immune response in healthy elderly subjects: a randomized controlled trial. JAMA 1997;277:1380-86.
  16. Morley JE, Mooradian AD, Silver AJ, et al. Nutrition in the elderly. Ann Int Med 1988;109:890-904.
  17. Morley JE, Silver AJ. Nutritional issues in nursing home care. Ann Int Med 1995;123:850-859.
  18. Morley JE, Thomas DR, Kamel H. Nutritional deficiencies in long-term care: detection and diagnosis. Annals Long-Term Care 1998;6(5):183-191.
  19. Pasman HR, Onwuteaka-Philipsen BD, Kriegsman DM, Ooms ME, Ribbe MW, Van Der Wal G. Discomfort in nursing home patients with severe dementia in whom artificial nutrition and hydration is forgone. Arch Intern Med. 2005 Aug 8-22;165(15):1729-35.
  20. Peck A, Cohen CE, Mulvihill MN. Long-term enteral feeding of aged demented nursing home patients. J Am Geriatrics Soc 1990;38:1195-1198.
  21. Reed PS, Zimmerman S, Sloane PD, Williams CS, Boustani M. Characteristics associated with low food and fluid intake in long-term care residents with dementia. Gerontologist. 2005 Oct;45 Spec No 1(1):74-80.
  22. Reuben DB, Greendale GA, Harrison GG. Nutrition screening in older persons. JAGS 1995;43:415-425.
  23. Schneider EL, Vining EM, Hadley EC, Farnham SA. Recommended dietary allowances and the health of the elderly. New Engl J Med 1986;314:157-160.
  24. Sheiman SL. Tube feeding the demented nursing home resident. JAGS 1996;44:1268-1270.
  25. Stevens J, Cai J, Pamuk ER, et al. The effect of age on the association between body mass index and mortality. NEJM 1998;338:1-7.
  26. Tayback M, Kumanyika S, Chee E. Body weight as a risk factor in the elderly. Arch Int Med 1990;150:1065-1072.
  27. Thomas DR, Kamel H, Morley JE. Nutritional deficiencies in long-term care: Part III: OBRA regulations and administrative and legal issues. Annals of Long-Term Care 1998;6(10):325-332.
  28. Verdery RB. Wasting away of the old old: can it and should it be treated? Geriatrics 1990;45(6):26-3.

 

Veja também:

Manejando os problemas cotidianos

Comunicação e Alzheimer

Cuidados pessoais

Distúrbios do comportamento

Problemas médicos (Parte 1)

Problemas médicos (Parte 2)

Medicamentos (Parte 1)

Medicamentos (Parte 2)

Pacientes acamados

Como escolher uma instituição

Suporte familiar e cuidadores