Alois Alzheimer

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Walther Spielmeyer

O trabalho de Alzheimer foi profundamente revisto pelo seu sucessor Walther Spielmeyer (1879-1935) no “Laboratorium Psychiatrischen aul Nervenlivik – Munique”, e publicado em um expressivo obituário na revista que Alzheimer havia fundado.

Não é surpresa portando, saber que Alzheimer considerava os “relatos de caso” uma das mais importantes atividades científicas.

Ele defendia explicitamente que a pesquisa anatômica necessitava ser conduzida pela experiência clínica.
Essa posição fica muito bem esclarecida quando os trabalhos por ele escritos são estudados.

O extenso estudo de paralisia realizado por Alzheimer é um excelente exemplo.

A partir de casos de apresentação típica, as características histológicas são examinadas e determinadas, sendo então comparadas com outras doenças. Dessa maneira Alzheimer demonstrava como o diagnóstico diferencial anatômico podia ser utilizado para responder questões clínicas.


Franz Nissl

O trabalho de Alzheimer sobre paralisia geral em doentes mentais é uma de suas publicações mais conhecidas.

Spielmeyer sugere que qualquer pesquisa sobre patologias corticais deve iniciar-se com a revisão dos estudos de Nissl e também dessa original publicação de Alzheimer.

Em um estudo posterior, Alzheimer examinou 170 casos de paralisia geral em doentes mentais, ilustrando como a sífilis era freqüente naqueles dias.

Importante nesse estudo foi verificar que o processo degenerativo que permeia essa trágica doença acontece independente de haver reações inflamatórias, se bem que a exata natureza do processo continue sendo desconhecida.

Como Spielmeyer assinala, muito pouco do que foi ensinado por Alzheimer teve que ser revisto e mesmo 100 anos depois, esses conceitos não haviam sido corrigidos ou complementados, apenas confirmados.


Trabalhando com a paralisia geral como um “modelo” de patologia cortical, Alzheimer delineou a chamada demência senil, a arteriosclerose cerebral, os danos gerados pelo alcoolismo e as infecções cerebrais agudas por sífilis.

De acordo com Spielmeyer, Nissl e Alzheimer celebraram, a “vitória da anatomia na psiquiatria”.

A atividade científica dos dois pesquisadores baseava-se no estudo da patologia do córtex cerebral na determinação das doenças mentais, totalmente em sintonia com o conceito defendido por Kraepelin.

As primeiras pesquisas de Alzheimer foram de alguma maneira facilitadas pelo fato de Alzheimer ser um médico jovem trabalhando na instituição dirigida pelo Professor Sioli.
Colegas mais experientes como Weigert e Nissl também eram de Frankfurt.

Em 1884, Weigert publicou sua técnica para vizualização da mielina e Nissl desenvolveu seu famoso método para a análise morfológica detalhada das células nervosas.



Alzheimer e Nissl fizeram várias pesquisas em parceria em Frankfurt e mantiveram esse relacionamento de amizade e de colaboração científica em Heidelberg, onde Alzheimer trabalhou como assistente de Kraepelin entre 1902 e 1903.



Emil Kraepelin

Spielmeyer enfatiza no obituário a grande influência que Nissl tinha sobre Alzheimer.

A grande influência de Nissl sobre seu trabalho pode ser atestada a partir da belíssima manifestação de Alzheimer que reconhecendo o fato declarou:

“Eu mencionarei o nome de Nissl sempre que estiver falando sobre o trabalho científico desenvolvido por ele nos tópicos em discussão que tiverem sido transmitidos a mim e, portanto de meu conhecimento".

e continua dizendo:

"Entretanto, a generosidade de Nissl nesses estudos não termina nisso. A amigável interação científica que me foi permitida usufruir nos últimos 15 anos forneceu-me mais estímulos do que eu poderia merecer – para dar apenas um exemplo – nenhuma das idéias que fortalecem o nosso conhecimento teriam sido concebidas sem sua participação, direta ou indireta”.

Alzheimer cultivava vários outros interesses.

Entre eles os tumores gliais, a degeneração hepatolenticular e a doença de Huntington (Coréia) estudando suas bases anatômicas.
Arteriosclerose* foi um de seus interesses desde o início do seu trabalho e entre 1894 e 1902, ele adquiriu um conhecimento detalhado sobre o assunto.

Seus estudos sobre arteriosclerose* o levaram a estudar outros processos ligados ao envelhecimento, especialmente as demências.

Alzheimer focou uma de suas linhas de investigação para demonstrar que a doença de Biswanger descrita em 1984 , “encefalite subcortical crônica” não era de natureza inflamatória.


Os estudos de Alzheimer sobre as patologias do córtex cerebral culminaram com a publicação, agora, de seu famoso e breve artigo onde ele descreve pela primeira vez a presença dos novelos, ou emaranhados neurofibrilares “tangles” em sua primeira paciente, Sra August D.


Desenho(histórico) feito pelo próprio punho de Alzheimer

Novelos Neurofibrilares (originais) de August D com desenhos feitos por Alois Alzheimer

Posteriormente, em um artigo mais abrangente, publicado em 1911, Alzheimer discute detalhadamente vários aspectos clínicos e neuropatológicos da doença por ele descoberta.


Pode ser surpresa para muitos atualmente o que já era claro na época de Alzheimer, não haver diferenças fundamentais entre o substrato histológico da demência pré-senil, forma clássica de Alzheimer, e a demência senil.
O próprio Alzheimer entendia que a demência pré-senil, seria uma forma atípica da demência senil.


O trabalho de Alzheimer respondeu a uma importante questão:

se o processo demencial dependia da existência de arteriosclerose*, da aterosclerose* ou de qualquer outra alteração vascular, demonstrando que arteriosclerose* cerebral e a doença que descobriu eram fundamentalmente duas doenças diferentes.


As formas de epilepsia também foram parte substancial das pesquisas de Alzheimer na definição de subtipos a partir das constatações neuropatológicas.


Ele declarou: “se queremos entender a natureza de uma doença, fazer um prognóstico, conhecer sua evolução e finalmente tratá-la, profilática ou terapeuticamente, devemos ter em mente a necessidade de definir com exatidão a entidade que está diante de nós”.

O que nós denominamos como epilepsia atualmente não representa uma entidade isolada e definida e sim um grupo de distúrbios.
Alzheimer corretamente assinalou que muitos casos de epilepsia apresentam alterações escleróticas “Ammonshorn”.
Ele também demonstrou a importância do estudo da degeneração do tecido nervoso nos tipos de respostas neurogliais agudas em cérebros de epiléticos.


A revisão da sua vida profissional revela duas fases principais de suas atividades científicas:
O primeiro período se encerra em 1904 com a publicação de seu artigo sobre paralisia geral.
Em Munique, Alzheimer escreveu que poucos, mas promissores indícios, demonstrados a partir de achados neuropatológicos sinalizavam que doenças caracterizadas por demência ou paralisia poderiam ter como causa, diferentes alterações teciduais.
Essa afirmação foi um importante ponto de discussão como sugeriu Wernicke.


Carl Wernicke (1848 – 1905) - Polônia

“Doenças mentais com uma correlação anatômica” poderiam ser causadas essencialmente pelo mesmo processo patológico
.

Dessa forma as respostas gliais só seriam diversas em termos quantitativos e doenças correlatas poderiam não apresentar alterações claramente características das respectivas patologias.


Alzheimer, entretanto demonstrou que nem o perfil patológico do fenótipo do caso nem a resposta glial manifestada eram um fenômeno simplesmente quantitativo e que as respostas da neuroglia eram fortemente dependentes do tipo e da intensidade do processo.


Alzheimer acreditava ser atribuição fundamental dos “anatomistas corticais” determinar a neuromorfologia específica das doenças e documentar todas as diferenças comparando-as com outras patologias corticais.

Clínica Psiquiátrica de Munique

O Laboratório de Alzheimer


Alois Alzheimer e seus Médicos Estudantes

Até 1912 , cinco anos depois da célebre publicação de Alzheimer , apenas 13 casos haviam sido publicados.

A idade média dos pacientes era de 50 anos e a duração da enfermidade era em média de 7 anos. Seis mulheres e 7 homens. Um desses casos, que iniciou-se quando o paciente tinha apenas 36 anos de idade, foi publicado em alemão pelo neuropsiquiatra espanhol, de Madrid, Gonzalo Rodrigues Lafora.

Felizmente o rico material histológico de Alzheimer, dos seus dois casos publicados, é agora acessível ao público em geral.
O material original demonstrou que as preparações histológicas eram de altíssima qualidade. Um pré-requisito para sua análise sempre meticulosa.

Como muitos cientistas, Alzheimer enfrentou sérias dificuldades na política acadêmica.

Sendo “apenas um anatomista” ele demorou um tempo fora dos padrões até ser premiado com o título de “Professor Pleno” - reconhecimento de suas conquistas.
Examinando sua produção científica constata-se que essa demora foi uma injustiça.

As sinergias entre os estudos clínicos e anatômicos de Alzheimer impulsionaram a evolução da psiquiatria e principalmente da neuropatologia de maneira raramente vista em outros programas de pesquisa.

Alzheimer é merecidamente considerado um dos pais e fundador da neuropatologia e as conquistas de sua vida exemplificam as fortes raízes que essa disciplina contém e da necessidade da neurociência clínica existir.

Alzheimer era um otimista. As dificuldades o estimulavam a encontrar novos caminhos em novos territórios. Ele formulou seu lema para as pesquisas por ocasião do 25o aniversário da direção do asilo mental de Frankfurt do Dr Emil Sioli:

"Reserva excessiva,conservadorismo e imobilidade não tem ajudado a ciência a avançar e nem nos leva a conquistas, mas um otimismo saudável e alegre na busca de novos caminhos para compreender, convence-nos de que é possível encontrá-los."


Alzheimer era um pesquisador meticuloso e dedicado e nunca publicou nada precipitadamente.
Spielmeyer comentando sobre a política das publicações de Alzheimer declarou:

“Alzheimer nunca teve que lutar para ter seu trabalho de pesquisa reconhecido. A clareza de suas apresentações de casos e relatos escritos convence até mesmo um distante observador, sobre a importância dos seus resultados" .

e prossegue:

"Nesses dias de grande produtividade de publicações quando todos acham que tem algo importante para dizer e onde muitos se promovem com coisas pequenas, Alzheimer só subiu ao palco quando realmente tinha algo verdadeiramente importante para comunicar”.

A missão científica da jornada de seu trabalho segue seu curso e os resultados falam por si:

Em Setembro de 2003, uma procura na “database” do Medline registrou mais de 40.000 entradas contendo o termo “Alzheimer”, no buscador Google houve 2.070.000 hits!

Alois Alzheimer MD, PhD

• *Nota do Editor

Muitas vezes os termos arteriosclerose e aterosclerose confundem-se pois são usados em diferentes épocas e por vezes com o mesmo sentido .
Na medida do possível tentamos manter o que foi dito independente da exatidão do conceito.

ARTERIOCLEROSE: Conceito
Grupo de processos que têm em comum o espessamento e a diminuição da elasticidade vascular.

ATEROSCLEROSE : Conceito
Termo utilizado pela primeira vez por Lobstein (1777 – 1835) .
Doença de progressão lenta, de início precoce, cuja característica é o “ateroma” – depósito circunscrito de lípides na íntima formando uma placa fibrogordurosa focal elevada, afetando artérias grandes e médias (coronárias, cerebrais, a aorta, tronco braquicefálico e ilíacas). É o tipo de arterioclerose mais freqüente e mais importante.

 

Veja também:

O Estudante de Medicina

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O Psiquiatra do Microscópio

A Primeira Paciente August D.

O Segundo Paciente Johann F.

Sua Época - História Ilustrada da Neurociência

Grandes Vultos da Neurociência - Galeria

Sua Vocação - História Mitológica de Medicina

Famosos e Doença de Alzheimer