Alois Alzheimer

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O Psiquiatra do Microscópio

Na Universidade de Munique dedica-se inicialmente ao estudo do diagnóstico diferencial da paralisia luética progressiva-Neurosífilis- e publica seu trabalho

 

“Differentialdiagnose Der Progressiven  Paralyse”:


Essa tardia complicação da infecção da sífilis era tão comum na época que praticamente 10% dos pacientes internados na Clínica Psiquiátrica de Munique eram portadores dessa temida patologia.

Alzheimer estudou 170 cérebros de pacientes acometidos por essa doença e seus achados neuropatológicos são as referências que temos até hoje.

 


    Munique

Em 1908 passa a fazer parte do staff da Clínica Real de Psiquiatria como Professor Associado sucedendo o psiquiatra e neurologista Robert Gaupp (1870 -1953)

 

Robert Gaupp

Alzheimer funda o Laboratório de Neuropatologia fazendo com que rapidamente o Instituto e em especial seu Laboratório ganhe reputação internacional.

Era ali que Alzheimer se realizava.


Médicos de vários países ocupavam os vinte assentos e estudavam nos microscópios.
Alzheimer ia de um a um, sentava-se ao lado e explicava lâmina por lâmina.

Alguns de seus estudantes comentavam a figura peculiar de Alzheimer com sua cabeça enorme, debruçado no microscópio com seu pince nez preso por uma fina corrente ao pescoço e na companhia de seu inseparável charuto que ele colocava no banco quando estava explicando detalhadamente os dados observados nos microscópios de altíssima qualidade  da firma Zeiss.


Contam que, no final do dia, a atividade didática de Alzheimer podia ser facilmente identificada a partir das marcas do charuto, deixadas nos bancos visitados.

 

 

 

O Laboratório tornou-se referência internacional sediando vários encontros científicos e sempre contando com a presença de renomados pesquisadores de várias partes do mundo:

Ugo Cerletti (1877 – 1963) Itália - um dos pioneiros na aplicação da eletroconvulsoterapia.

 

Ugo Cerletti

  • -Hans Gerhardt Creutzfelt (1885 – 1964) e Alfons Maria Jacob (1884 – 1931) -    médicos alemães que descreveram a demência de Creutzfelt Jacob.
  • -Fritz H. Lewy – Alemanha - (1885 – 1950) – descreveu os Corpos de Lewy em 1914
    -B.Doinikow- Rússia – conhecido estudioso da Esclerose Múltipla.
  • -L. Omorokow– Rússia – relacionou a encefalite em baixas temperaturas com epilepsia.
  • -T. Simchowicz – Polônia – escreveu sobre o artigo de Gaetano    Perusini em 1910.
  • -Ludwig Merzbacher – Alemanha - (1875 – 1942) doença de Pelizaeus – Merzbacher.
  • -Constantin von Economo – Grécia - (1876 – 1931) – famoso por seus trabalhos sobre citoarquitetura cerebral.
  • -Nicolas Achúcarro -Espanha – Lãs Arenas – Bilbao – que investigou com Alzheimer “ o estudo anatomopatológico das psicoses”.
 

Nicolas Achúcarro

-Fritz Lotmar – Suíça - (1856 – 1926)
-A.  Farworski – Rússia
-A. St. Rosental-Polônia
-S. Casamajor – EUA


E os italianos:
 
-F.Fulci
-Francesco Bonfiglio
-Gaetano Perusini (1879 – 1915) que trabalharia estreitamente com Alzheimer especialmente no estudo dos quatro casos após o de August D.
Perusini publicou os resultados em 1910 enfatizando a necessidade de diferenciar a doença de Alzheimer do processo natural de envelhecimento.
Como discípulo de Alzheimer, seu trabalho foi tão importante que o médico italiano chega a também receber, especialmente na Itália, um epônimo,
– doença de Alzheimer-Perusini.

 

Gaetano Perusini

Em 1904 Alzheimer recebe sua habilitação como Professor Universitário.
 
Por ocasião do 37o Encontro de Psiquiatras do Sudeste da Alemanha (South – West – German Society of Alienists) em Tübingen dia 3 de novembro de 1906, sábado, Alois Alzheimer apresenta oralmente o caso de August D. O título de sua apresentação foi “Eine eigenartige Erkrankung der Hirnrinde”
“Uma Doença Característica do Córtex Cerebral”.


A descrição clínica e neuropatológica completa foi publicada no ano seguinte no “Allgen Z Psychiatr Psych – Gerich Méd”.

 

Posteriormente, quem denominou essa nova entidade clínica como doença de Alzheimer foi Emil Kraepelin na 8ª edição de 1910 em seu livro:

“Psychiatrie: Ein Lehrbuch fur Studierende und Artze”.[1910a] Psychiatrie. Ein Lehrbuch für Studierende und Ärzte. Achte, vollständig umgearbeitete Auflage. II. Band. Klinische Psychiatrie. I. Teil. Barth Verlag, Leipzig 1909 [vgl. 1909a, 1913a, 1915a

Na terça-feira, de 16 de Julho de 1912, Alois Alzheimer foi nomeado Diretor do Departamento de Psicologia da Friedirich-Wilhem University em Breslau (Wroclaw), Polônia, por um decreto assinado pelo Rei Wilhelm II da Prússia,posição que ele nunca iria assumir.

O Decreto Real e o Diploma da Nomeação 

(Documentos Originais)

 

Breslau

Alzheimer aceita o convite, mas já no trem, durante sua viagem a Breslau (Wroclaw), sente-se mal e na sua chegada é imediatamente hospitalizado.

Sua saúde deteriora-se rapidamente, mas mesmo assim dedica seus últimos 3 anos de vida à clínica e a pesquisa porém nunca assumiu o cargo em Breslau como havia planejado .

A partir de outubro de 1915 passa a maior parte do tempo acamado e em uma sexta-feira, 19 de novembro de 1915 morre em Breslau aos 51 anos de idade vítima de uma cascata de eventos que inicia com uma forte gripe seguida de uma tonsilite que evolui para febre reumática que leva a uma endocardite, glomérulonefrite e finalmente insuficiência renal.

Infelizmente, Alexander Fleming (1881 – 1955) só iria descobrir a penicilina em 1928, que talvez pudesse ter evitado o desaparecimento prematuro de Alois Alzheimer.

 


Alexander Fleming

Seus restos mortais descansam ao lado de sua esposa judia no cemitério judeu de Frankfurt am Main ali sepultada, em 28 de fevereiro de 1901, quarta feira.

 

O diagnóstico da doença de Alzheimer ainda é baseado fundamentalmente no que foi descrito por Alzheimer em 1906 apesar de quase um século de pesquisa em todos os cantos do mundo.

Esse é um fato marcante e demonstra a importância e a qualidade de sua descoberta.


Alzheimer nunca escreveu um livro, mas colaborou na realização de um extenso tratado “Die Anatomie der Geisteskrankheiten” Anatomia das Doenças Mentais ,que nunca foi terminado.

Em parceria com With Lewandowsky (1876 – 1918) fundou a revista científica: “Zeitschrift für die gesamte Neurologie und Psychiatrie”

 

O PSIQUIATRA DO MICROSCÓPIO

O trabalho de Alzheimer e suas pesquisa no campo da neuropatologia despertaram um interesse incomum nesse campo do conhecimento sendo merecidamente considerado um dos pais da neuropatologia.

Ele conseguia conciliar seus pesados compromissos atendendo pacientes como psiquiatra e dedicava-se apaixonadamente ao estudo histopatológico do córtex cerebral.


Apesar da importância da sua maior descoberta, deve-se ressaltar as inúmeras contribuições científicas dadas por ele a várias patologias neurológicas, especialmente as corticais.

Era um homem muito estimado e respeitado por seus colegas de profissão tanto pelo seu trabalho como por sua personalidade.

No seu obituário, Robert Gaupp, que por ele havia sido sucedido na Clínica de Kraepelin – The Royal Psychiatric Hospital – em Munique e que ocupava a posição de professor titular da cadeira de psiquiatria da Universidade de Tünbigen escreveu:

“Alzheimer foi um homem de mente aberta e raro poder criativo que o levou a sofrer muito no seu trabalho além de sua forte determinação na busca incessante da verdade científica.O treinamento correto conjugado aos seus talentos tinham que resultar em grandes conquistas no campo da ciência".

e prossegue:

"Tudo isso foi complementado pelo seu caloroso interesse no ser humano, sua mentalidade como um verdadeiro médico e o grande prazer que tinha em combinar ciência e prática clínica".

e conclui:

 "Mesmo trabalhando fundamentalmente em um campo infinitamente pequeno, extremamente difícil e super-especializado ele sempre deixou claro que suas pesquisas nunca iriam colocar em plano secundário o clínico que nele habitava”.
 
Os relatos sobre a atmosfera do Centro de Estudos no laboratório por ele dirigido atestam que o clima era muito acolhedor e instigantemente positivo resultando em grande aprendizado e nascedouro de novas e criativas idéias.


Alzheimer sempre chegava ás 2 horas da tarde, uma hora antes dos seus colaboradores e estagiários, retomava seu trabalho do dia anterior e terminava seus afazeres. Quando seus colegas chegavam, ele, com seu inseparável charuto, sempre tinha tempo para sentar com cada um e explicar calmamente os aspectos neuropatológicos que estavam sendo estudados nos microscópios do seu célebre laboratório.

 

Fritz.H.Lewy que descreveu as alterações epônimas em doentes portadores de doença de Parkinson, foi um dos pesquisadores visitantes do serviço de Alzheimer.

Quando publicou seu célebre trabalho colocou o endereço do Laboratório de Munique. Alzheimer devia ter o Dr. Lewy em grande conceito, pois nomeou o jovem médico que tinha apenas 27 anos para dirigir seu laboratório de pesquisa em Breslau – Polônia. Lewy ainda visitou o laboratório em Munique mais uma vez, alguns anos depois, quando Walther Spielmeyer (1879 – 1935) assumiu o cargo deixado por Alzheimer no famoso laboratório.

O chefe de Alzheimer, Emil Kraepelin, fundador da psiquiatria moderna, era também um visionário.

Propalava corajosamente a idéia de que alterações biológicas seriam o substrato de algumas doenças psiquiátricas, na mesma época em que Freud pregava a psicanálise.

 

   

Sigmund Freud (1856 - 1939) Checoslováquia

Cria o termo psicanálise em 1986.

Kraepelin, muito conhecido por seu trabalho em esquizofrenia, criou um ambiente de trabalho para que os maiores talentos daquela época pudessem superar seus limites atingindo a excelência.
Sua Clínica era tão respeitada que Nissl recusou assumir uma cadeira na Universidade de Heidelberg para continuar fazendo pesquisa básica no serviço de Kraepelin em Munique.


A esse seleto grupo iria se unir, pouco depois, os respeitados cientistas;Corbinian Broadmann e Emil Jahnelt.

 Kraepelin era um hábil político e conseguiu levantar fundos substanciais para custear pesquisas de seu novo laboratório de pesquisa em psiquiatria mesmo em plena  I Guerra Mundial. 
A concretização e implantação desse novo laboratório eram uma conseqüência lógica dos planos idealizados por Kraepelin muito em função do sucesso alcançado por seu subordinado Alzheimer.

Com a ausência prematura de Alzheimer, Kraepelin não tinha argumentos convincentes para levar o plano adiante. Dessa forma o projeto transformou-se no – Deutsche Forschungsanstalt für Psychiatry, Kaiser –Wilhelm – Institute e depois da II Guerra Mundial renomeado como Instituto Max-Plank de Psiquiatria até os dias de hoje.

À medida que a doença de Alzheimer ganha mais espaço na mídia e nos círculos científicos, o interesse pela sua história aumenta de forma expressiva.


Em 1992 e 1997 foram descobertas, nos porões da Universidade de Frankfurt, as lâminas histológicas de August D. e de Johann F., os dois primeiros pacientes de Alois Alzheimer, permitindo que seus prontuários e lâminas fossem minuciosamente estudados.


De posse dos dados clínicos desses pacientes e mais de 250 lâminas de August D. foi possível entender melhor o que ocorreu há quase um século.

Nas anotações do caso de August D., muitas delas, do próprio punho de Alzheimer, foi demonstrado que ela não compreendia o mundo que a rodeava, tinha alucinações, estava desorientada, confusa e não conseguia comunicar-se. Seus sintomas tiveram início com uma crise de ciúmes de seu marido, perda progressiva da memória recente e distúrbios de comportamento. Alzheimer a examinou com minúcia e sempre acompanhou sua evolução mesmo estando em Munique.


O descobrimento do material original do cérebro de August D. foi de uma importância indescritível possibilitando responder a muitas perguntas que ficaram sem respostas na breve descrição apresentada por Alzheimer em 1906 e publicada em 1907.


 

Certo de que doença de August era excepcionalmente rara e desconhecida, Alzheimer começa a estudar febrilmente a histopatologia de seu cérebro. 

 Utilizou as técnicas mais modernas de preparação de material disponíveis na época, em particular o método do polonês Bielschowsky que lhe permitiu descobrir originalmente o seu achado mais importante e totalmente desconhecido na época: a degeneração das neurofibrilas que formam o citoesqueleto dos neurônios.

Para isso, teve que utilizar preparações à base de impregnação pela prata.

A técnica do precipitado de prata havia sido descoberta por Golgi em 1873 e a de nitrato de prata por Cajal em 1903.

Cajal e Golgi dividiram o prêmio Nobel em 1906 em reconhecimento por essas descobertas.

 

Camillo Golgi-1843-1926 Santiago Ramón Cajal-1852-1934 Itália                                                                               Espanha

 

Alzheimer também pode contar com modernos e potentes microscópios da firma Zeiss assim como com as melhores câmeras fotográficas disponíveis na época.

Alzheimer foi tremendamente beneficiado em seu trabalho com a melhoria significativa da qualidade dos microscópios produzidos por Carl Zeiss quando em 1866 Ernst Abbe’s começa a colaborar com a empresa fundada em 1864 aperfeiçoando os aparelhos para pesquisa científica.

 

Carl Zeiss                    Ernst Abbe’s

 

O Laboratório de Alzheimer em Munique - Foto da Época

Alguns autores questionaram o diagnóstico de Alzheimer e especularam se não havia ocorrido um erro de avaliação.

 Entretanto, Graeber em 1999, demonstrou que não havia sinais de leucodistrofia metacromática e nem de alterações vasculares que apoiariam o diagnóstico de que August tivesse sido vitimada por uma demência por múltiplos infartos cerebrais.

 Ficou demonstrada a presença de grande quantidade de placas neuríticas (ou foco miliar como Alzheimer as denominou) descritas previamente por Fischer e Redlich, e de novelos neurofibrilares (esses sim identificados pela primeira vez por Alzheimer), confirmando o que havia sido descrito em 1907, concluindo tratar-se realmente de uma doença até então desconhecida.

 

Tecido do Córtex Cerebral de August D.(originais)
(a) x 5 e (b) x 100 -  Placas Neuríticas
(c) x 100 - Novelos Neurofibrilares com os desenhos feitos por Alzheimer (originais)

O material era originário, predominantemente das camadas corticais superiores e chama a atenção o fato de que nem o hipocampo nem a região endorrinal terem sido estudados.


O DNA foi extraído sendo possível determinar o genótipo APOE que foi 3/3, ou seja, menos predisposição de risco para a doença de Alzheimer.


A análise do livro de autópsia da Clínica de Kraepelin em Munique, identifica com o número 181, a data de morte de August D. pois Alzheimer registrou oficialmente o recebimento de seu cérebro enviado a ele de Frankfurt por Emil Sioli.

 

Livro de Autópsia da Clínica de Kraepelin em Munique

Alzheimer estimulou seus colegas, especialmente a Gaetano Perusini, a encontrar e estudar casos semelhantes ao de August D. para que seus dados pudessem ser comparados tanto clínica como histologicamente.

 

Gaetano Perusini (1879-1915)

O segundo caso de doença de Alzheimer oficialmente publicado foi da paciente B.A ., admitida no sábado de 9 de março de 1907, (quase um ano depois da morte de August).

Havia perdido a memória aos 60 anos de idade, apresentava grande euforia e agitação, repetia sempre as mesmas frases desconexas com um vocabulário extremamente limitado. Fazia movimentos estranhos dando socos no ar e mandando beijos para os médicos que a atendiam. Foi a óbito dois meses depois de sua admissão.

O terceiro caso estudado em Munique foi do paciente Sch.L, auxiliar judiciário que apresentou sinais de demência e distúrbios de comportamento aos 60 anos de idade. Quando ainda trabalhava, não deixava de dar conselhos ao juiz e por vezes assumia o seu papel condenando os acusados sumariamente à morte e expulsando-os energicamente da sala de audiência. Conversava ilusoriamente com suas antigas namoradas e insultava grosseiramente os demais pacientes da enfermaria. Faleceu em 1907 com mais de 65 anos de idade.

O quarto caso deu entrada na Clínica no sábado de 21 de setembro de 1907, o paciente R.M, um artesão que fazia cestos, com 45 anos de idade. Há cinco anos iniciou com alterações mentais que evoluíram lenta e progressivamente com grave perda de memória, afasia, incontinência urinária e total desorientação no tempo e no espaço.
Era incapaz de resolver problemas simples de aritmética. Foi a óbito na sexta feira de 3 de abril de 1908, oito meses depois de sua internação.

Alzheimer e Perusini encontraram nos cérebros desses três pacientes, B.A., Sch.L. e R.M. as mesmas lesões apresentadas por August D.

Por último, Johann F., pedreiro, com 56 anos de idade que foi admitido na terça feira de 12 de novembro de 1907 na Clínica de Munique. Johann, seis meses antes da internação, apresentava perda progressiva de memória, não conseguia se expressar com clareza, não sabia como voltar para sua casa e era incapaz de realizar suas tarefas habituais. Inapetente, não pedia nem procurava alimentos, porém, comia com voracidade quando os alimentos eram colocados na sua frente. Só conseguia fazer cálculos extremamente simples e não era capaz de cuidar de sua higiene. Faleceu na segunda feira de 3 de outubro de 1910 em conseqüência de uma pneumonia.


Alzheimer publicou esse caso em 1911 com muitos detalhes. Esse caso o interessou particularmente porque não encontrou a degeneração neurofibrilar que tinha chamado tanto sua atenção no caso de August D., apenas placas neuríticas em grande quantidade.

Quando Kraepelin começou a revisar o Capítulo VIII de seu livro intitulado “Demência da Idade Degenerativa”, da 8ª. edição de seu “Tratado de Psiquiatria”, publicado em 1910, já estava familiarizado com as publicações de Alzheimer e Perusini, 1909, e com os detalhes clínicos e histológicos dos quatro casos estudados.

Seu editor, Johann Ambrosius Barth, já o havia avisado em 1907, da necessidade urgente de uma nova edição ser publicada tendo em vista a grande demanda detectada. Sendo assim, Kraepelin começa a trabalhar nessa nova edição de seu “Tratado de Psiquiatria para Estudantes e Médicos”.

Tanto por ser muito ocupado, como também pelo grande crescimento da ciência psiquiátrica naqueles tempos, decide desdobrar sua obra em dois volumes, sendo que o primeiro foi dedicado à psiquiatria geral.

Alzheimer, conhecedor profundo das atividades da Clínica, se oferece para substituir Kraepelin nesse período para que seu chefe pudesse dedicar-se à conclusão de seu livro.

Assumiu a função delegada na quarta-feira de 11 de março até a segunda-feira de 27 de abril de 1908.

 

A Célebre Clínica de Kraepelin e Alzheimer em Munique

Kraepelelin termina sua obra pontualmente e no sábado de 28 de fevereiro de 1909 o primeiro volume do Tratado “Psiquiatria Geral” chega às livrarias.

O segundo volume “Psiquiatria Clínica” ,realmente o mais importante, foi disponibilizado ao público na sexta-feira de 15 de julho de 1910, dizia na aprtesentação de sua obra:

“Com particular satisfação, quero deixar aqui registrado meu apoio incondicional ao meu amigo e colaborador, o Professor Alzheimer, que me permitiu descrever os seus resultados clínicos e anatomopatológicos em minhas palavras e imagens'.

 Fora o agradecimento impresso, Kraepelin também demonstrou sua gratidão a Alzheimer com outro gesto; a ampliação do Capítulo VII-intitulado Demência “Pré-Senil e Senil”.

 No índice do livro, como sub-título da seção “Esclerose Cerebral Senil” aparece pela primeira vez o nome de “Doença de Alzheimer”.

Na página 624 dessa seção, Kraepelin escreveu” Alzheimer descreveu um grupo próprio de casos com graves alterações neuronais”.

Os casos em questão eram os de August D., publicado por Alzheimer em 1907; os outros 3 de Perusini e os casos individuais de Francesco Bonfiglio, e E Sarteschi.

É curioso notar que Alzheimer, ao publicar em 1911 a segunda observação da doença de Alzheimer de seu paciente, Johann F., não faz nenhuma referência que sua doença já havia sido “batizada” por Kraepelin com seu próprio nome.

  Emil Kraepelin (1856-1926)

Até 1912, cinco anos após a publicação original de Alzheimer, apenas 13 casos haviam sido publicados. A idade média desses pacientes era de 50 anos, a duração média da doença de sete anos e seis eram homens.


Um desses casos, que iniciou os sintomas aos 36 anos de idade foi publicado em alemão pelo neuropsiquiatra espanhol de Madrid, Gonzalo Rodríguez Lafora.

Os estudos de necrópsia só eram realizados em pacientes que morriam antes dos 65 anos de idade, pois poucas pessoas atingiam esse patamar - a expectativa de vida ao nascer era menos da metade dos dias de hoje.

O objetivo desses estudos era de definir se os dados relatados pela Clínica de Munique eram consistentes do ponto de vista científico.

 As técnicas de preparação histológica foram melhorando e os microscópios foram aumentando a capacidade de ampliação ótica. Assim, foram sendo descobertos outros casos de doença de Alzheimer mas sempre em pacientes que faleciam antes dos 65 anos de idade, se bem que, em 1931 já havia começado um debate sobre a relação da doença de Alzheimer com o processo de envelhecimento.

A correlação entre o envelhecimento e a doença de Alzheimer só começou a ser verdadeiramente debatida na década de 1960.

Sir Martin Roth, professor de psiquiatria em Newcastle upon Tyne, em 2000, conduziu um estudo demonstrando que a doença de Alzheimer era a causa mais comum de demência senil. O estudo consistiu na avaliação neuropsicológica do estado mental, memória, concentração, orientação etc., de pacientes idosos sem sintomas de demência admitidos em um hospital geral comparando-os com outros idosos de um hospital psiquiátrico.

 Sir Martin Roth

Garry Blessed construiu e aplicou testes cognitivos e funcionais em dois grupos de pacientes. Estudou os dados de necrópsia dos portadores e dos não portadores de demência à medida que iam falecendo.

O patologista Bernard E.Tomlinson elaborou uma escala de avaliação quantitativa das lesões neuropatológicas descritas originalmente por Alzheimer.

Em 1968, esses autores ingleses publicaram trabalhos extremamente importantes estabelecendo definitivamente que as placas neuríticas e os novelos neurofibrilares eram a principal causa da então chamada demência senil, sendo que, no total dos cérebros estudados, em mais da metade dos casos, foram encontradas as lesões anatomopatológicas típicas da doença de Alzheimer,sem nenhum comprometimento vascular relevante.

17% apresentavam exclusivamente infartos cerebrais e em 18% eram mistos. Esses resultados terminaram com o antigo mito que estabelecia que as demências senis tinham como causa principal a arteriosclerose*.  

Ao demonstrar que a maioria dos idosos que apresentavam demência em idades avançadas eram, na realidade, portadores da doença de Alzheimer, essa entidade tida como rara, tornou-se foco de grande atenção e interesse por sua importância.

Em 1976, nos Estados Unidos da América, uma revista científica de neurologia, em seu editorial apresentou dados epidemiológicos obtidos em pequenas populações de idosos que combinados com os estudos de Roth, Blessed e Tomlinson estimava o número de pessoas afetadas naquele país de 880.000 mil a 1.200.000.


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Esse artigo provocou grande comoção nacional e, em 1977, o Instituto Nacional de Saúde dos EUA colocou em marcha um amplo estudo nacional para avaliar profundamente a doença, suas implicações sociais e a necessidade de um diagnóstico correto.

Atualmente nos Estados Unidos da América existem mais de 4.500.000 portadores de doença de Alzheimer

 

Alzheimer com seus colegas na Clínica de Munique
 

• * Nota do Editor

Muitas vezes os termos arteriosclerose e aterosclerose confundem-se pois são usados em diferentes épocas e por vezes com o mesmo sentido.
Na medida do possível tentamos manter o que foi dito independente da exatidão do conceito.

    • ARTERIOCLEROSE: Conceito
      Grupo de processos que têm em comum o espessamento e a diminuição da elasticidade vascular.
  • ATEROSCLEROSE : Conceito
    Termo utilizado pela primeira vez por Lobstein (1777 – 1835).
    Doença de progressão lenta, de início precoce, cuja característica é o “ateroma” – depósito circunscrito de lípides na íntima formando uma placa fibrogordurosa focal elevada, afetando artérias grandes e médias               (coronárias, cerebrais, a aorta, o tronco braquicefálico e ilíacas). É o tipo de arteriosclerose mais freqüente e mais importante.

 

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A Primeira Paciente August D.

O Segundo Paciente Johann F.

Sua Época - História Ilustrada da Neurociência

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